A Morte da Lei

Fernando Carlos M. Rodrigues

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-   Introdução ..................................................................................................................... 2

-   I - Deus e a Lei ............................................................................................................. 4

-   II - O Nascimento da Lei ........................................................................................... 5

-   III - A Função da Lei .................................................................................................. 7

-   IV - Mandamentos da Lei e Mandamentos do Senhor ...................................... 9

-   V - Rompimento Necessário ..................................................................................... 17

-   VI - Rejeição ao Pecado e Processo de Restauração ....................................... 20

-   VII - Mas, e os Nossos Pecados? ........................................................................... 25

-   VIII – A Mente Autojustificada ............................................................................ 28

-   IX - O Relacionamento com os Legalistas .......................................................... 45

-   X - A Inutilidade da Lei ............................................................................................ 53

-   XI - Lei e Graça: Absolutamente Excludentes Entre Si ................................ 54

-   XII - A Loucura do Evangelho ................................................................................ 56

-   XIII - Sempre Atuantes, Mesmo Diante das Dificuldades ......................... 57

-   XIV - O Mundo ............................................................................................................ 59

-   XV - Acerca do Mérito Humano ............................................................................. 60

-   Considerações Finais ................................................................................................. 63

 

SE SOIS GUIADOS PELO ESPÍRITO, NÃO ESTAIS SOB A LEI

(Gálatas 5:18)

 

 

INTRODUÇÃO

 

Há muito tempo tenho conversado sobre o Evangelho de Jesus Cristo com uma amiga muito estimada. Mas a mensagem da Graça parecia não chegar sequer à sua mente, muito menos ao seu coração. E é muito angustiante quando alguém que amamos não enxerga a mais extraordinária bênção de Deus para a humanidade.

Assim como boa parte dos que anunciam o Evangelho de Cristo, eu sempre apresento a Graça de Deus não apenas como diferente da Lei, mas oposta a ela, sendo ambas ainda absolutamente excludentes entre si. Mas a ênfase é sempre na Graça. A Lei aparece apenas como um contraponto teológico para levar à compreensão da Graça.

Com relação à minha amiga, o que pude fazer foi orar para que Deus lhe abrisse o entendimento para o Evangelho. Um dia, durante uma conversa, ela me disse algo inesperado: “Você fala muito sobre a Graça, mas eu quero compreender mais a Lei. Fale-me mais sobre ela. Explique-me detalhadamente a diferença entre estar debaixo da Lei e estar debaixo da Graça”.

Para minha surpresa, depois de algum tempo de explanação - até meio improvisada e superficial, sem uma maior reflexão - ela finalmente começou a compreender a Graça de Cristo, citando inclusive alguns detalhes que eu havia falado em outras ocasiões, e que eu imaginava terem passado despercebidos. Senti e testemunhei, de uma forma diferente, prática e rápida, diante dos meus olhos, a Lei servindo de aio para conduzir a Cristo (Gálatas 3:24).

Ali fui tocado para a necessidade de, paralelamente à Graça, mostrar também, de forma clara, não só as conotações puramente teológicas da Lei, mas também a sua instrumentalidade e objetivos; a natureza das posturas e dos comportamentos aos quais a Lei induz quem a ela se sujeita, nela buscando justificação; como pensam, agem, enxergam (a si mesmos e ao próximo) e se relacionam com Deus e com o mundo, todos aqueles que, mesmo convertidos, permanecem sob seu domínio (Romanos 7:1).

Comecei, a partir de então, a ler novamente todo o Novo Testamento, principalmente as cartas do apóstolo Paulo. Desta vez, não em busca de Graça, como de costume, mas em busca da Lei. E, nesse propósito, entre tudo o que há no Novo Testamento sobre a Lei, chamou-me a atenção a determinação de Paulo de que ela precisa morrer em nossas vidas. E mais do que isso, ele afirmou que só pode estabelecer um relacionamento com Cristo aquele para quem a Lei morreu (Romanos 7:2-3).

Nesses últimos tempos, a igreja de Cristo tem experimentado um maravilhoso despertar da Graça, mas ocorreu-me que talvez não estejamos denunciando claramente aquela que, por causa do pecado, é o maior obstáculo para a Graça de Deus: a Lei. E se ela precisa morrer para que tenhamos profunda e verdadeira comunhão com Cristo, convém que a conheçamos muito bem, e não ignoremos as atitudes e artimanhas de mentes ainda escravizadas a ela e nela autojustificadas, que enxergam e raciocinam segundo a lógica meritória da obediência a ordenanças, e não com discernimento do Espírito, que liberta e aperfeiçoa.

Quem está debaixo da Lei não pode estar debaixo da Graça, e vice-versa. Quem busca justificação pela Lei não será justificado pela Graça de Cristo (Gálatas 5:4). Entretanto, o que mais sabemos sobre a Lei, além disso? O que é a Lei? Por que foi dada? Que bem ou mal ela pode trazer? Se a Lei é um obstáculo para o plano divino de perdão e salvação dos pecadores, pode ela ter ainda alguma serventia na igreja e na vida de quem está comprometido justamente com o plano de Deus para o perdão e salvação da humanidade?

 

I - DEUS E A LEI

 

Existe, a respeito da Lei, uma idéia absolutamente equivocada, mas profundamente enraizada no subconsciente dos cristãos. Para o cristianismo em geral, Jesus Cristo é a encarnação de Deus, mas a Lei Mosaica também é vista como uma personificação divina. Cristo é Deus em forma humana, e a Lei seria Deus em linguagem humana; Deus em forma de mandamentos e ordenanças, para que a nossa mente limitada possa compreender mais facilmente, de forma prática, a complexa e desejável santidade divina. A Lei - um conjunto de mandamentos absolutos, generalizados e imutáveis, com forte cheiro de condenação - seria a personificação de um Deus absolutista, generalizador, inflexível, e sedento de condenação. A Lei seria, portanto, “Deus explicado”, “a bula de Deus”, ou ainda “o DNA de Deus” e, conseqüentemente, o caminho mais óbvio para ele (mais óbvio e confiável até do que o perdão em Cristo, que parece meio incerto e duvidoso...).

É isso que acontece em todas as religiões, onde se busca a ilusória perfeição humana, ou um “contato do humano com o divino”, e as regras (leis) para se conseguir tal intento são a essência do próprio deus. Mas isso nada tem a ver com o Evangelho de Jesus Cristo. Trazer esse raciocínio para a vida cristã acarreta muitos problemas para quem quiser andar na plenitude da Graça de Deus. Tal idéia precisa ser definitivamente arrancada do nosso espírito, sob pena de não compreendermos a essência do Evangelho de Cristo, pois, nele, DEUS NÃO É A LEI e A LEI NÃO É DEUS.

 

II - O NASCIMENTO DA LEI

 

Não é necessário estar debaixo da Lei Mosaica (sujeito a ela, como os judeus) para estar sujeito ao julgamento divino; ou seja, não é passivo de julgamento somente quem está debaixo da Lei Mosaica (Romanos 2:12-15). A lei que primeiro acusa o homem, de forma implacável, é a sua própria consciência, desde o jardim do Éden, quando ele quis ser conhecedor do bem e do mal (Gênesis 3:5). Tal conhecimento o fez conscientemente responsável pelas conseqüências de suas decisões, que, a partir daquele instante, poderiam ser tomadas à revelia da vontade de Deus. A partir dali já se fazia conhecer a “norma da lei” (Romanos 2:15), que domina o homem enquanto ele viver (Romanos 7:1), e o padrão de julgamento gerado por essa consciência do bem e do mal é o seu principal acusador, pois antes de transgredir a Lei Mosaica (quem debaixo dela está), o homem transgride a lei da própria consciência (Romanos 2:1). Mas Deus já havia explicado, de forma bastante clara, concisa e direta, aonde a lei da consciência levaria o homem (Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás – Gênesis 2:17). Por isso, é exatamente a consciência do homem que Deus quer restaurar e renovar, livrando-a da escravidão ao pecado, para que ele volte a ter sintonia e comunhão com o seu Criador (Romanos 12:2).

Mas, se a “norma da Lei” - que está gravada no coração do homem (Romanos 2:15) – acusa-o de seus pecados, qual a razão da Lei Mosaica? Ela foi “adicionada” por causa das transgressões (Gálatas 3:19), para que se tivesse uma lei positiva e um parâmetro absoluto, de forma que o Messias a obedecesse e a cumprisse cabalmente, para que a sua justiça não dependesse apenas da “norma da Lei” que está na consciência humana desde o Éden. Afinal, pela consciência de quem, seria julgada a justiça do Messias?

A Lei Mosaica é uma sistematização completa e generalizada da consciência de pecado que é inata ao homem, individualmente (Romanos 3:20). Alguém cuja consciência desconheça algum pecado, certamente o conhecerá na Lei (Romanos 7:7), que é o estatuto da perfeição humana (e não divina, como muitos pensam). Quem a cumprisse cabalmente seria considerado perfeito em nível humano, por isso ela foi dada como um alvo a ser alcançado pelo Messias, que, como homem, teria de ser perfeito (cordeiro sem mácula), para poder pagar pelos pecados de toda a humanidade (I João 2:2). Desse modo, a Lei Mosaica - e tudo relativo a ela - é dirigida exclusivamente ao povo de Moisés (Romanos 9:4), do qual viria o Messias (mas nem eles a cumpriam – João 7:19 / Gálatas 6:13), e que não poderia ser um povo sem lei civil e sem o direcionamento espiritual correto (A Lei Mosaica aponta para o Messias – Gálatas 3:24), sob o risco de o Filho de Deus nascer em uma família idólatra, por exemplo. Por isso a Lei contém mandamentos morais e cerimoniais.

Contudo, a Lei nunca foi um meio de aperfeiçoamento espiritual para ninguém (Hebreus 7:18-19), e a sua exigência de perfeição apenas empurra o pecador para o Messias perdoador. Por isso a sua validade foi até que viesse o descendente, a quem se fez a promessa (Gálatas 3:19). Para quem, e só para quem está no descendente (Jesus Cristo), acabou a validade da Lei (a da consciência e a sua sistematização – a mosaica), porque o fim da Lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê (Romanos 10:4); as coisas velhas já passaram, eis que tudo se fez novo (II Coríntios 5:17), por isso já não importa se estávamos debaixo da “norma da Lei” na consciência (gentios) ou debaixo da Lei Mosaica (judeus); o que importa é sermos nova criatura naquele que da lei nos libertou para a liberdade (Gálatas 5:1). Esta é a “regra” do Espírito, e todos os que andarem em conformidade com ela terão paz e misericórdia (Gálatas 6:15-16).

Paulo reprova veementemente a sujeição à Lei (Gálatas 2:14) e ainda afirma que todo gentio que voluntariamente se submete a uma única exigência da Lei Mosaica fica obrigado a guardá-la integralmente (Gálatas 5:3). A religião cristã (que é edificada sobre a Lei), sabendo disso e não confiando que a consciência do pecador forneça acusações suficientes para condená-lo, sempre cuidou diligentemente de “voluntariar” os cristianizados para debaixo da Lei Mosaica, para que todos tenham um acusador eficiente, de modo que, na realidade, é de debaixo da pesada mão de Moisés que a grande maioria dos que hoje atendem ao chamado do Evangelho precisa ser resgatada, pois é a Lei Mosaica o referencial exclusivo de justiça e de acusação que a religião cristã já plantou no coração dos pecadores, deixando de fora a consciência do pecador, que é justamente o que precisa ser (e Deus quer que seja) renovado.

O apóstolo Paulo é muito claro: separado está de Cristo todo aquele que procura justificar-se na Lei; e, se esse alguém um dia pensou estar na Graça de Cristo, dela decaiu (Gálatas 5:4). Tais palavras exigem uma séria e urgente reflexão...

 

III - A FUNÇÃO DA LEI

 

Mas se a Lei não é Deus, e Deus não é a Lei, qual o papel dela no plano de salvação dos pecadores? Sabemos que Deus é o juiz, mas um juiz apenas dá a sentença do réu, que é baseada nas acusações que contra ele pesam e na defesa que lhe presta o seu advogado. Sabemos ainda que o Senhor Jesus é o advogado de todo aquele que nele crê e que, obviamente, o tem como seu advogado (I João 2:1), e que esses nem entram em juízo (João 5:24 – Cristo é o nosso advogado hoje, pois os seus não entrarão em julgamento); no próprio Cristo de Deus já fomos julgados, condenados, sentenciados à morte e tivemos a nossa pena executada. Quem será, então, o acusador?

Sempre que o Senhor Jesus falava da sua própria obrigação de, como Messias, guardar infalivelmente toda a Lei, ele referia-se a ela como “vontade do meu Pai” ou como “mandamentos do meu Pai” (João 15:10). Mas sempre que ele falava da sujeição dos homens à Lei e da tentativa humana de justificação pela obediência a ela, ele referia-se à figura de Moisés (João 7:19), e isso porque Deus não tem nada a ver com justificação dos homens pela Lei.

Foi fazendo justamente essa separação que o Senhor Jesus respondeu de forma bastante clara à pergunta sobre quem será o acusador do homem: “Não penseis que vos acusarei perante o Pai. Quem vos acusa é Moisés (a Lei), em quem tendes firmado a vossa confiança” (João 5:45). Quem não crê que a Lei aponta para Cristo, e busca justiça própria mediante a obediência às suas ordenanças (da Lei), está dormindo com seu próprio algoz. A vontade do Pai para o Filho (entre outras coisas) era que ele cumprisse cabalmente a Lei. A vontade do Pai para os homens é que todos, morrendo para a Lei, creiam na justificação através do Filho e, assim, tenham a vida eterna (João 6:40).

É função da Lei, portanto, acusar os pecados dos homens – e só! Ela não ama, não tem misericórdia, não dá chance de arrependimento, não perdoa, não aperfeiçoa nem salva ninguém. Há um só que faz tudo isso: DEUS; e Deus não é a Lei, e a Lei não é Deus. Ela acusa - e só acusa - os pecados do mundo inteiro, mas a interferência amorosa de Deus foi para assumi-los todos (I João 2:2), e a sua vontade é que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade (I Timóteo 2:4). Para isso ele estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões (II Coríntios 5:19).

Deus não é o acusador de pecados; ele é o perdoador de pecados. Ele é essencialmente absoluto, mas não é essencialmente absolutista. Na pessoa de seu filho, o Deus absoluto viveu e cumpriu a exigência de justiça absoluta e gratuitamente disponibiliza-a para todo o que crê (Romanos 3:24). A estes o Senhor jamais imputará pecados (Romanos 4:8), pois a sentença da justiça da Lei é uma só: condenação e morte eterna, mas a sentença da justiça de Deus (manifestada e executada em Cristo) é misericórdia, perdão e vida eterna, de modo que o povo de Deus deve ser notoriamente o “povo do perdão”, para quem pode e deve se dirigir toda alma cansada e oprimida, pois ali achará descanso e alívio de seus pesados fardos (Mateus 11:28-30).

O amor de Deus por nós trouxe o nosso perdão e, da mesma forma, o nosso amor pelo próximo deve levar-lhe sempre o perdão, pois Deus nos perdoou para que sejamos nós também igualmente perdoadores. No Evangelho de Cristo, a renovação da mente e a transformação do coração acontecem através do amor e do perdão, e não pela obediência temerosa a ordenanças.

Se você não almeja nem vê, por exemplo, uma grande vitória no fato de conseguir perdoar alguém que lhe ofendeu gravemente, trazendo-lhe angústia e muito sofrimento, e a partir daí sepultar a mágoa, passando a viver em paz com quem lhe ofendeu, você ainda tem uma noção muito pequena da transformação que Cristo quer efetuar em você. E se você não vê nisso nem algo que deve ser buscado, e acha normal que não consiga, pois não é natural e seria injusto com você, então preocupe-se com o que você chamou de sua “conversão”, pois, embora o chame pelo mesmo nome, o senhor a quem você pensa servir não é o Senhor Jesus Cristo.

Fala-se por aí que há várias formas de amar, e muita gente diz que ama muita gente. Mas desconfie de um amor que se diz “capaz de fazer qualquer coisa nessa vida”, mas que é incapaz de perdoar, pois a essência do amor é o perdão, e o perdão é para verdadeiros culpados, sem a menor justificativa para os seus erros - assim como nós, diante de Deus. Quem diz que ama, mas é incapaz de perdoar, incorre na mentira mais irônica, que é mentir para si mesmo.

 

IV - MANDAMENTOS DA LEI (PARA MORTE) E

MANDAMENTOS DO SENHOR (PARA VIDA)

 

Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte (Romanos 8:1-2)

 

A Lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom (Romanos 7:12). Mas, como meio de justificação diante de Deus, ela é, para o pecador (por não lhe permitir um tropeço sequer – Tiago 2:10), ministério de morte e condenação (II Coríntios 3:7-9), inútil para o seu aperfeiçoamento (Hebreus 7:18-19), de modo que o mandamento que fora para vida, tornou-se (por causa do pecado) para morte, porque a Lei é espiritual, mas o pecador é carnal, vendido à escravidão do pecado (Romanos 7:10-14).

A Lei vigorou até Cristo (obviamente para quem nele está), pois ele aboliu na sua própria carne a Lei dos mandamentos em forma de ordenanças, para, de judeus e gentios, criar um novo homem (Efésios 2:15). Por causa do pecado, os santos mandamentos da Lei são caminhos de morte, e está debaixo de maldição todo aquele que, sendo das obras da Lei, não as cumpre sem um tropeço sequer (Gálatas 3:10). Mas, em Cristo, tudo se fez novo (II Coríntios 5:17), e quem está nele tem agora novos mandamentos. Não mais mandamentos da Lei, em forma de ordenanças - que, por causa do pecado, levam a condenação e morte eterna - mas mandamentos do Senhor (I Coríntios 14:37), que são parâmetros de Deus para a vida de todo renascido na Graça e no Espírito de Cristo, pois a questão da nossa condenação já foi resolvida quando ele mesmo assumiu os nossos pecados e sofreu a sentença que seria nossa.

Nos ensinos do Senhor Jesus e dos apóstolos estão os mandamentos para todo renascido em Cristo. Eles têm os mesmos princípios espirituais dos mandamentos da Lei (que é santa), mas não são penosos (I João 5:3), pois, não tendo punições estabelecidas para infrações (como é na Lei), são absolutamente despidos de qualquer possibilidade ou intenção de julgamento para condenação (Romanos 8:1); são para vida e nos ensinam a viver e a andar no Espírito (Gálatas 5:25), como um renascido na Graça de Deus deve andar, discernindo a vontade divina e corajosamente tomando decisões em cada situação na vida real, e não no mundo ilusório, fantasioso e hipócrita da mera religiosidade. Por isso os mandamentos do Senhor serão de muito maior glória, pois são ministério do Espírito e da Justiça (II Coríntios 3:7-9), e têm no amor a sua causa e efeito, porque amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo excede a todos os holocaustos e sacrifícios (Marcos 12:33), e quem ama não pratica o mal contra o próximo, de sorte que o cumprimento da lei é o amor (Romanos 13:10).

Cristo anunciou um novo mandamento - base de muitos outros ensinados por ele mesmo e, posteriormente, pelos apóstolos - que é também o referencial identificador de seus discípulos (Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros. Assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos os que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros - João 13:34). Convém lembrar que tais palavras de Jesus não são um conselho ou uma advertência, mas um mandamento para os seus discípulos. Quem anda nele é aperfeiçoado no amor e deve andar como ele andou (I João 2:5-6). Diferente da expectativa religiosa mais comum, a maior característica do discípulo de Cristo – determinada por ele mesmo – não é o “pecado zero”, mas, sim, o amor ao próximo.

Sempre que leio aqueles que o Senhor Jesus chamou de principais mandamentos, eu me pergunto: “O que é e para que serve uma fé, supostamente em Cristo, mas que não gera humildade nem leva o indivíduo a ações práticas, reais e relevantes que manifestam misericórdia e amor ao próximo (Tiago 2:18)? De quem é tal evangelho? De Jesus Cristo?”.

A diferença, não só de finalidade, mas também de linguagem e instrumentalidade, entre os mandamentos da Lei e os mandamentos do Senhor é facilmente identificável. Enquanto a Lei ameaça com a condenação e aterroriza o pecador, perseguindo-o tal qual um pitbull que tenta morder-lhe o calcanhar (em algum momento ele vai pegá-lo), os mandamentos do Senhor afastam toda a condenação e o medo dela, e são um incentivo constante à renovação da mente, para que obtenhamos uma consciência regenerada e sadia (Romanos 12:2).

Longe de tentar subjugar pela ameaça e pelo medo, o que se vê nos mandamentos do Senhor (anunciados pelo próprio Jesus e também pelos apóstolos) é o incentivo para que desenvolvamos em nós o que todo aquele que está em Cristo já recebeu, ou seja, a própria mente de Cristo (I Coríntios 2:16). Para isso é que os apóstolos - numa linguagem firme, mas amorosa – rogam que: acatemos, consideremos, aceitemos, perdoemos, busquemos, participemos, aconselhemos, admoestemos, cresçamos, renovemos, recebamos, amparemos, consolemos, suportemos, dividamos, evitemos, deixemos, rejeitemos, despojemo-nos, revistamo-nos, sigamos, anunciemos, façamos, edifiquemos, persistamos, amemos, falemos, compartilhemos, alegremo-nos, regozijemo-nos, oremos, intercedamos, louvemos, glorifiquemos, caminhemos, creiamos, libertemos, confiemos e vivamos. O objetivo de tudo isso é remover o véu legalista que nos mantém na cegueira religiosa e farisaica e, em um processo gradual, que deve ser sempre crescente (Colossenses 1:9-10; II Pedro 3:18), ensinar-nos a enxergar com os olhos do Espírito, sem o véu do legalismo autojustificador (II Coríntios 3:12-18).

Tudo que Cristo falou fora do contexto da Lei, bem como os ensinamentos dos apóstolos (também fora do contexto exclusivamente judaico), são mandamentos do Senhor Jesus, e não da Lei. E é a esses mandamentos do Senhor Jesus - e não aos da Lei - que se referem versículos como: Ora, sabemos que o temos conhecido por isto: se guardamos os seus mandamentos (I João 2:3); Se me amais, guardareis os meus mandamentos (João 14:15); Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama (João 14:21); Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor (João 15:10). Confundir a ordem de “guardar os mandamentos do Senhor” com “guardar os mandamentos da Lei” é suicídio espiritual; é confundir vida e morte. Assim como, mesmo aquele que não crê em Cristo usufrui bênçãos se, em algum ponto, andar conforme os mandamentos do Senhor (porque são para a vida), aquele que crê em Cristo, mas opta por andar segundo as obras da Lei, também de algum modo sentirá as duras conseqüências de tentar trazer novamente sobre si a justiça da Lei, pedindo e submetendo-se voluntariamente à sua disciplina (Ezequiel 20:37).

Mas, em Cristo, tudo se fez novo, e não mudou apenas a linguagem dos mandamentos. A metodologia, a forma e o objetivo do relacionamento são diferentes. Tudo o que era relacionado ao regime da Lei - instrumentos, práticas e costumes (e que sempre foram privativos dos israelitas – Romanos 9:4) - foi extinto na Nova Aliança. O voto já tinha sido alvo de ressalvas do próprio Deus, que o desestimulava já na antiga aliança (Quando a Deus fizeres algum voto, não tardes em cumpri-lo, porque não se agrada de tolos. Cumpre o voto que fazes. Melhor é que não votes do que votes e não cumpras - Eclesiastes 5:4-5), e foi expressamente proibido por Cristo na Nova Aliança: “Também ouviste que foi dito aos antigos: Não jurarás falso, mas cumprirás rigorosamente para com o Senhor os teus juramentos. Eu, porém, vos digo: de modo algum jureis, nem pelo céu – por ser o trono de Deus – nem pela terra – por ser o estrado dos teus pés; nem por Jerusalém – por ser cidade do grande Rei; nem jures pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto. Seja, porém, a tua palavra: sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno” (Mateus 5:33-37).

Esse mesmo mandamento do Senhor foi repetido por Tiago: “Acima de tudo, porém, meus irmãos, não jureis nem pelo céu, nem pela terra, nem por qualquer outro voto. Antes seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não” (Tiago 5:12). Mas o voto sempre foi muito apreciado na igreja como um instrumento eficiente de barganha com Deus (com o nome de “voto” no cristianismo evangélico e de “promessa” no cristianismo do Vaticano). Da mesma forma, a pedra de uma tonelada que balança sobre a cabeça de quem faz um voto - e que está prestes a cair sobre aquele que não o cumpre - sempre foi também considerada pela instituição igreja um instrumento muito útil na sua luta, não para derrotar o senhorio do pecado através do amor, da misericórdia e do perdão gratuito, mas para extingui-lo pela força da Lei (I Coríntios 15:56).

Apesar da clareza absoluta da proibição dos votos nos textos acima, sempre ouvimos a tentativa de justificá-los pelo fato de que, já no Novo Testamento, há relatos de alguns discípulos que fizeram voto. Ora, observa-se, antes de tudo, que são judeus fazendo votos – pois era um costume do regime da Lei (que é dos judeus). Nota-se também que tais votos aparecem inseridos no contexto de demonstrar a tentativa que há, desde o início da igreja, de que não só os judeus convertidos continuem sob o jugo da Lei (Atos 21:20-21), mas também os gentios convertidos se submetam à Lei Mosaica (todo o NT - principalmente as cartas de Paulo – narra a luta contra a permanência [dos judeus] e a sujeição [dos gentios] ao jugo da Lei, para que possamos ser guiados pelo Espírito). Paulo contemporizou em algumas situações, com relação aos judeus (pois, quanto a eles, que são o povo de Moisés, não há problema em guardar a Lei, não sendo para fins de justificação, como foi o caso da circuncisão do judeu Timóteo pelo próprio Paulo [Atos 16:1-3], que jamais circuncidaria o gentio Tito [Gálatas 2:3]), mas quanto aos gentios convertidos, Paulo sempre exigiu a separação total da Lei, proibiu a nossa sujeição a ela (Gálatas 5:2-4), e o seu ministério caracterizou-se pela luta contra a influência mosaica e todas as suas formas de legalismo na igreja gentílica (no início havia uma nítida separação entre igreja judaica e igreja gentílica – ler Atos 15) e a sua conseqüência direta, o farisaísmo; de modo que, quem está justificado em Cristo não pode sujeitar-se à Lei nem sentir-se justificado pela obediência a ela (Romanos 7:2-4).

Quando escreveu aos gentios (e nós somos gentios convertidos), Paulo deu instruções claras e detalhadas sobre o padrão de comportamento a ser buscado pelos renascidos na Graça de Cristo, listou valores morais e espirituais que deveriam guiar todos os discípulos, e ainda tratou de condutas seriamente reprováveis para um discípulo, e fez tudo isso sem recorrer à Lei Mosaica (por quê?). Antes, apontou-a como a força do pecado (I Coríntios 15:56), instrumento de domínio do pecado (Romanos 6:14) e mandou-nos manter distância de quem busca e quer impor aos outros a justificação pela obediência à Lei (Tito 1:10-11).

Voltando à questão do voto, nada impede que um renascido no Espírito tome uma decisão radical e comprometa-se diante do Senhor (com a devida seriedade) para redirecionar os rumos de uma determinada situação ou para corrigir uma postura constante e inadequada para uma nova criatura em Cristo (Romanos 7:19). Entretanto, sua decisão deve ser um “sim” (ou um “não”, se for o caso) diante de Deus, sem recorrer a barganhas (se me deres isso, faço aquilo) nem fazer acordos (punições ou “prêmios”) nem tampouco utilizar o nome de algo claramente proibido pelo Senhor Jesus (o voto – ou “juramento”, que são a mesma palavra), na tentativa de deixar o cheiro ameaçador da temível Lei, pois, para o renascido na Graça de Cristo, ela está morta, e até o cheiro do que está morto é desagradável...

O jejum – equivocadamente também visto por muitos como uma forma de, mediante sacrifício pessoal, comover o Senhor e obter respostas mais rápidas – também desde a antiga aliança já havia recebido ressalvas e advertências do próprio Deus quanto ao verdadeiro jejum que ele quer de nós (Isaías 58:5-7). Diferente do voto, não há clara proibição para o jejum na Nova Aliança (se não houver a intenção de barganha com Deus), mas a ironia e o desprezo de Jesus – que chamou o jejum de “vestido velho” e “odre velho” (Mateus 9:14-17) – mostram a descartabilidade do jejum para quem está em Cristo.

O culto formal - diferente do que pensa a grande maioria de nós, ele também foi dado exclusivamente aos judeus (Romanos 9:4) – que era a adoração em um lugar determinado (o templo judaico), com hora marcada, ritual invariável, e intermediado por um sacerdote, foi substituído pela adoração em espírito e em verdade (João 4:23), em todo lugar, a toda hora, tendo por único sacerdote o também único mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo (I Timóteo 2:5). De modo que agora, em Cristo, somos todos individualmente sacerdotes (I Pedro 2:5).

No Novo Testamento, o termo “culto” refere-se sempre ao culto judaico ou a algum culto pagão. A igreja é definida como lugar de comunhão e edificação, e só... Não há referências neotestamentárias à igreja como um lugar de culto. E isso simplesmente porque na Nova Aliança não há mais a cerimônia exclusiva de adoração. O renascido no Espírito cultua o Senhor Jesus com a sua vida, 24 horas por dia, em todo lugar.

No culto da velha aliança havia um seleto grupo de pessoas fazendo um ritual pré-determinado e previsível para Deus (adoração formal). Na comunhão da igreja deve haver um ajuntamento de vários tipos de gente em busca do que Deus quer fazer por elas (edificação). Mas, o processo (bem-sucedido) de “legalização” que tem sido imposto sobre a igreja desde o final dos tempos apostólicos, na tentativa de fazer dela apenas uma sutil remodelagem do Templo (com toda a sua sacralidade), inclusive atribuindo-lhe o papel de lugar exclusivo de culto, tem transformado-a em um híbrido de Lei e Graça - mais para Judaísmo Cristão do que para o Evangelho de Cristo - organizado numa sistematização funcional que tem como prioridade apenas manter rotinas religiosas, levando a instituição igreja a cultuar-se a si mesma (Colossenses 2:20-23), exacerbando sobremaneira o muito respeito que lhe é devido, a ponto de fazê-la sentir-se uma Santa Madre Igreja e apresentar-se como um lugar atraente para corações farisaicos e sedentos de lei, que buscam autolegitimação na rígida “lei dos crentes”, mas um lugar inadequado para corações que verdadeiramente se reconhecem pecadores, de modo que, no hospital de recuperação espiritual que ela deveria ser, ela não vê nada mais do que seria um “antro de pecadores”.

Quando o Senhor Jesus disse que estaria onde houvesse dois ou três reunidos em seu nome (Mateus 18:29), ele, evidentemente, não estava afirmando que não estaria com um discípulo quando este estivesse sozinho. Ele tratava aqui de comunhão (papel fundamental da igreja), e mostrou que, para que ela aconteça, basta que haja duas pessoas reunidas em seu nome. Para Cristo, esse pequeno ajuntamento já é a sua Igreja. Desse modo, ele deixou claro também que estaria e agiria fora das paredes da instituição igreja e, ao mesmo tempo, alertou-nos para o fato de que o centro de sua atenção são as pessoas (comunhão e edificação), e não o lugar (Templo – exclusivo para culto e adoração).

O medo da Lei e o medo de discernir as situações espiritualmente são os dois lados da mesma moeda. Por isso precisamos aprender a separar claramente o que é da Lei e o que é da Graça, apresentando-nos como obreiro aprovado, que maneja bem (“divide bem”, no original) a palavra da verdade (II Timóteo 2:15), para que não tenhamos zelo sem entendimento (Romanos 10:2), pois, se nos acomodarmos em julgar tudo pela aparência religiosa e não desenvolvermos a habilidade de identificar até o perfume da Graça de Cristo, jamais perceberemos sequer a diferença entre uma rosa verdadeira e uma outra, muito parecida (às vezes, até mais bela), mas de plástico.

Tudo que não procede do amor nem resulta em amor é legalismo, posto que, em Cristo, tudo provém e é feito por amor. Mesmo as mais duras exortações e até o afastamento da comunhão são por amor, com amor e visando à restauração (II Tessalonicenses 3:14-15). Se não é por amor nem com amor, não vem do Espírito de Deus, pois Deus é amor (I João 4:8) e, por isso, todos os nossos atos devem ser feitos com amor (I Coríntios 16:14). Tudo o que Deus quer realizar no coração, na alma e na consciência do pecador, todo o processo para que o velho homem se transforme em uma nova criatura, renascida na Graça de Cristo, tem o seu início, meio e fim no amor a Deus e se revela no amor ao próximo. Uma suposta fé no amor incondicional de Deus, que não se manifesta em atitudes reais, motivadas pelo mesmo amor incondicional ao próximo, é uma fé morta (Tiago 2:17-18).

Os princípios do Evangelho de Cristo são alicerçados em dois mandamentos, dos quais dependem toda a Lei e os profetas: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração... e o teu próximo como a ti mesmo”. Entretanto, só pode amar a Deus quem se sente amado por ele primeiro, mas o cristianismo-religião sempre dificultou a percepção do amor divino; sempre quis vender caro o que Deus dá gratuitamente. O Evangelho diz: “Descansa no amor de Deus por ti”; o cristianismo-religião te ensina a negociar com Deus. O Cordeiro crucificado clama: “Eu e o Pai te amamos!”; o cristianismo-religião sussurra: “Desconfie deles...”.

Do mesmo modo, ninguém consegue amar ao próximo como a si mesmo sem considerar a superabundância (Romanos 5:20) e a multiformidade da Graça de Deus (I Pedro 4:10). Para nós, a Graça tem apenas a medida exata dos nossos pecados; de modo que pecados mais feios do que os nossos são inaceitáveis. Precisamos entender, aceitar e crer que a Graça é suficientemente abundante para alcançar aqueles que julgamos mais pecadores do que nós, e que ela pode revelar-se a eles de uma forma diferente da que as nossas mentes cauterizadas pela institucionalização julgariam mais conveniente e adequada. Só faremos algo parecido com “amar ao próximo como a nós mesmos” quando libertarmos nossa mente da autojustificação legalista:

A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros, pois quem ama ao próximo tem cumprido a Lei. Pois isto: não adulterarás, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e se há qualquer outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não pratica o mal contra o próximo, de sorte que o cumprimento da Lei é o amor” (Romanos 13:8-10).

Na Velha Aliança, o referencial de pecado é a transgressão da Lei, e o seu cumprimento total (perfeição) é o padrão necessário (apenas hipotético) para a salvação. No Evangelho de Cristo (Nova Aliança), o amor é o fator determinante de tudo. O pecado – embora não tenha mais a condenação como uma possível conseqüência, pois já não é mais uma transgressão da Lei - é qualquer atitude (para com o próximo ou para consigo mesmo) que não seja amor, inclusive omitir-se de exercer o amor (Tiago 4:17). A salvação se dá através da fé no amor incondicional de Deus, que amou o mundo de tal maneira, que enviou seu Filho unigênito para pagar pelas transgressões do mundo inteiro (I João 2:2) e cumprir a sentença que seria nossa. Todo aquele que crer e confiar nesse ato de amor não perecerá e terá a vida eterna (João 3:16).

A graça, o amor e o perdão de Cristo são suficientes para o mundo inteiro, e eficientes naqueles que crêem. E, uma vez perdoados e livres da condenação, o mandamento do Senhor para nós – e que é o padrão para a nova criatura, renascida no seu Espírito - é que tratemos o próximo como gostaríamos de ser tratados (Lucas 6:31) e que nos ajudemos mutuamente (Gálatas 6:2), amando-nos uns aos outros como ele nos amou (João 15:12).

Os mandamentos da Lei, Cristo já os guardou por nós. Ele agora quer que guardemos os seus mandamentos (João 15:10), que são referenciais de amor, de modo que um renascido no Espírito pode e deve ser repreendido e exortado (com toda longanimidade - II Timóteo 4:2), não por desobediência à Lei (para a qual ele está morto), mas por falta de amor.

Na Lei, o pecador observa “o que não pode fazer”. Na Graça, o renascido no Espírito, confia no que “já foi feito” (consumado - João 19:30) por Cristo e, por amor, compromete-se com “o que tem a fazer”. Na Lei, o mundo deve ser evitado. Na Graça, esse mesmo mundo precisa ser conquistado.

A igreja precisa entender que não existe nos mandamentos do Senhor a linearidade e a generalização (coletivização) característica da Lei, pois eles não são um estatuto de condenação. O Espírito conhece as fraquezas e os limites de cada um de nós e nos trata individualmente. Diferente do que acontecia quando estávamos debaixo de lei, agora que estamos em Cristo, podemos e devemos ser nós mesmos, para que assim possamos ser aperfeiçoados, pois o processo precisa começar do zero. Então, em vez de tentarmos policiar, monitorar, julgar e sentenciar a vida dos irmãos - como se a igreja de Cristo fosse uma fábrica de biscoitos absolutamente iguais - devemos ouvir o que o Espírito tem a nos dizer sobre a nossa própria vida. O “desnível espiritual” na igreja com relação à liberdade cristã é claramente mencionado pelos apóstolos e, desde que não proceda de puro legalismo, o mandamento do Senhor é que ele seja aceito e que se busque conviver com ele em paz (Romanos 14:1-3) e sem forçar a barra (I Coríntios 3:2). Tentar ressuscitar a Lei como parâmetro da nossa liberdade a fim de se conseguir uma falsa homogeneidade na igreja é uma atitude absolutamente inadmissível na caminhada com Cristo (Romanos 14:4).

 

V - ROMPIMENTO NECESSÁRIO

 

Mas o que mais se pode dizer sobre a Lei? Que comportamentos e atitudes ela mantém – ou agrava - em corações ainda sob seu domínio, mesmo depois da conversão ao Evangelho? Se estamos na Graça - e a Lei é oposta à Graça - devemos constantemente examinar se estamos servindo à Lei (acusação e julgamento) ou ao Espírito de Deus (chamado ao arrependimento, perdão gratuito e processo de regeneração).

Nos ensinos do apóstolo Paulo, percebemos que ele considerava indispensável o rompimento com a Lei. E para deixar bem claro o nível de rompimento que tinha em mente, ele usou a figura mais definitiva que existe: a morte. Nada há de mais definitivo, mais contundente, mais divisor, mais separador e mais significativo de sumir sem deixar rastros nem possibilidade de contato. Em várias ocasiões o apóstolo Paulo afirma que o rompimento com a lei deve ser tão definitivo quanto a própria morte (morremos para ela, e ela para nós).

Na cruz de Cristo morreram também a Lei e, espiritualmente, o nosso “velho homem” (Romanos 6:6). E agora, libertados da Lei, estamos mortos para aquilo a que estávamos sujeitos, de modo que servimos em novidade de espírito, e não na caducidade da letra (Romanos 7:6). A partir da conversão, iniciamos um processo de renovação da nossa consciência (novo nascimento, como nova criatura), para que possamos compreender com a mente aquilo que já aconteceu no nosso espírito, de modo que ambos (mente e espírito) andem, não de acordo com o espírito desse mundo, mas em conformidade com a vontade de Deus (Romanos 12:2). E essa renovação acontece na velocidade e no ritmo do Espírito, e não no desespero típico de quem está debaixo da Lei.

Com Cristo fomos crucificados, com ele ressuscitamos, de modo que por ele e para ele vivemos, pois agora ele vive em nós (Gálatas 2:19-20). E o apóstolo Paulo nos estimula constantemente à compreensão dessa nova vida, que só pode ser discernida e vivida sem a Lei, exclusivamente pela ação do Espírito Santo de Deus em nossas vidas, que nos revela e também nos ensina como andar no Espírito. E Paulo deixou bem claro que isso ocorre à medida que formos rompendo os laços com a Lei, e de uma forma tão definitiva quanto a morte.

Assim como nós morremos em Cristo, a Lei também se foi no Calvário. Para os que estamos em Cristo, a Lei está definitivamente morta e enterrada, mas nós nascemos de novo, agora no Espírito (João 3:3-7). A idéia é, portanto, que tudo tem que ser zerado, esquecido e reiniciado em um novo formato (II Coríntios 5:17). Nada do que era velho pode adentrar o que é novo, pois ninguém põe remendo de pano novo em roupa velha (Mateus 9:16).

A morte da Lei significa a extinção da forma de relacionamento com Deus que ela representa. Que, aliás, nunca foi uma forma de relacionamento, mas, sim, de não-relacionamento com Deus. Quem está debaixo da Lei - ou seja, buscando justificação diante de Deus pelas suas próprias boas obras através do esquema de obediência a mandamentos e ordenanças – não mantém relacionamento com Deus. Ela, a Lei, simplesmente diz: “Cumpra-me e viva ou desobedeça-me e morra!”. Entenda-se com a Lei quem sob a Lei está (Romanos 3:19). Deus está fora desse relacionamento. O desafiante está por sua própria conta e risco, pois quem está debaixo da Lei está debaixo de maldição (Gálatas 3:10).

A Lei morreu para nós, e nós para ela. E isso significa que precisamos desistir de qualquer forma de barganha com Deus e rejeitar todo e qualquer espírito de altivez que tente incutir em nosso coração a idéia de justificação por mérito próprio, bem como tudo que possa contribuir para esse fim: a postura julgadora e sentenciadora do próximo (sempre disfarçada de “boas intenções”), bem como os rituais pessoais e os procedimentos litúrgicos que tenham sua origem na Lei, pois não se põe vinho novo em odres velhos, eles não o suportam (Mateus 9:17). Devemos ainda abandonar as atitudes arrogantes, típicas de quem se sente mais “santo” do que os demais e justificado pela obediência a ordenanças. Tudo que estiver adequado ao regime (esquema) da Lei em nossas vidas deve ser morto e enterrado. Precisamos exercitar nossas mentes a nem mais pensar conforme a estrutura e a natureza da justificação pela Lei, pois ela é referencial de condenação, e nós não somos comprometidos com a condenação de ninguém. Somos, sim, comprometidos com o perdão e salvação de toda a humanidade e, para isso, temos um novo referencial – o amor de Deus.

A sentença da justiça da Lei é condenação e morte eterna. O “povo do perdão” não pode se amoldar a tal instrumento, pois para ele já morremos com Cristo. Mas a sentença da Justiça de Deus, em Jesus, é perdão e vida eterna, e nela devemos investir todas as nossas forças, com nossa mente e coração subjugados à Graça de Cristo, pois nela é que somos salvos. Vale a pena repetir sempre: a Lei não é Deus, e Deus não é a Lei...

O apóstolo Paulo deu-nos ainda um outro motivo, bastante esclarecedor, para não tentarmos ressuscitar a Lei. Antes de estarmos em Cristo, cada pecado nosso era uma transgressão da Lei, e a nossa situação como transgressores só piorava. Aquele que está em Cristo não vive na prática do pecado (I João 3:9), mas certamente ainda comete pecados (I João 1:8-10). Entretanto, não somos mais transgressores, pois não estamos mais debaixo da Lei. Ela não nos diz mais respeito, e só transgride a Lei quem sob a Lei está, pois onde não há Lei não há transgressão (Romanos 4:15), e nós, em Cristo, morremos para a Lei, a fim de vivermos para Deus. Tentar ressuscitar a Lei é querer reconectar os pecados a ela; é tornar-se novamente transgressor e fazer de Cristo ministro do pecado (Gálatas 2:17-19), pois, assim sendo, ele teria apenas dado carta branca a transgressores. Por isso não havia outra opção, a Lei tinha que morrer, e mor-reu!

Precisamos ainda entender que a Lei é um conjunto de mandamentos, mas funciona (só funciona) como um todo, como uma peça única, de modo que quem tropeça em um só mandamento é culpado de todos (Tiago 2:10). A conclusão óbvia, que devemos entender e aceitar sem medo, é que quem fica livre de um mandamento também fica livre de todos. Se Cristo nos livrou da Lei, ele não nos livrou apenas de um ou outro mandamento, mas de toda a Lei. Se morremos para a Lei e ela morreu para nós, isso não se refere apenas a alguns mandamentos, mas a toda a Lei.

 

VI - REJEIÇÃO AO PECADO E PROCESSO DE RESTAURAÇÃO

 

O poder do pecado sobre o homem natural é tremendo, pois ele já nasce seu escravo. Na cruz do Calvário, Cristo decretou a morte desse homem natural e afastou totalmente as conseqüências dessa escravidão para todo aquele que crê. Mas a caminhada com Cristo acontece numa seqüência diferente da que compreenderíamos mais facilmente. De modo que, no Calvário, Cristo primeiramente nos declarou santos, puros como ele é puro (I João 3:3), perdoando antecipadamente as nossas iniqüidades e cobrindo os nossos pecados, que jamais nos serão imputados (Romanos 4:7-8). Depois disso, então, é que vem o processo de “adequação” a essa nova realidade. Ou seja: primeiro, Cristo perdoa e salva (“Está consumado!” – João 19:30); depois, restaura e renova.

Na cruz do Calvário, quando assumiu a nossa condenação, Cristo antecipou o perdão e consumou tudo, já declarando justos, perfeitos e livres da escravidão do pecado todos os que viessem a crer na sua obra. Entretanto, esse fato (real) não nos capacita a nos libertarmos sozinhos do domínio do pecado.

Ao explicar a carnalidade e a escravidão de todo homem ao pecado (Romanos 7:7-25), o apóstolo Paulo - assumindo uma figura representativa de todos nós - deixou bem claro, de forma radical e chocante, que, embora absolvidos por Cristo (v. 20), se dependesse unicamente de nós - mesmo já convertidos - não venceríamos o pecado, e viveríamos derrotados (Quem me livrará do corpo desta morte? – v. 24), pois o nosso “velho homem” – nossa natureza adâmica - só será totalmente aniquilado no encontro com Cristo, quando o nosso corpo corruptível e mortal se revestirá de incorruptibilidade e imortalidade (I Coríntios 15:53).

Ao mostrar que, mesmo convertidos, ainda estamos sujeitos a cometer pecados considerados muito graves, o apóstolo abriu as portas da igreja para todo e qualquer tipo de pecador que se possa imaginar (o hospital deve receber e cuidar de absolutamente todas as enfermidades, mesmo das mais chocantes e repulsivas a olhos ainda carnais e farisaicos), e destruiu ainda, sem dó nem piedade, qualquer possibilidade de nos vangloriarmos (em nós mesmos) nas vitórias contra o pecado (para tristeza e decepção dos legalistas), induzindo-nos à sujeição total e absoluta ao senhorio de Jesus Cristo, que é quem nos capacita a caminhar mortificando a nossa velha natureza, pecadora, e a vencer o pecado, pois, mesmo não estando mais sujeitos à condenação (Romanos 8:1), se confiarmos em nossa religiosidade, colheremos derrota após derrota. Sem Cristo, somos flores sem perfume, uma linda cachoeira sem água, arco-íris em preto e branco, praia sem pôr-do-sol, disco do nosso cantor favorito sem ter onde ouvi-lo. Sem Cristo, somos inúteis e não vencemos o pecado nem damos fruto algum, pois, sem ele, nada podemos fazer (João 15:5).

A nossa jornada recomeça a cada manhã, e não estamos mais trilhando, sozinhos, um caminho que aponta para Cristo (a Lei – Gálatas 3:24); ele é o próprio caminho (João 14:6), e o seu senhorio deve estar “ativado” o tempo todo em nossas vidas.

Deus rejeita o pecado sempre. Ele rejeitava os nossos pecados antes da nossa conversão ao Senhor Jesus, e ainda os rejeita hoje. Mas a morte de Cristo possibilitou uma maior intimidade de Deus para conosco. Em Cristo, Deus assumiu toda a acusação e a condenação da Lei pelos nossos pecados, e pagou por todos eles. Contudo, sabemos que quem está em Cristo ainda comete pecados (I João 1:8-10), mas, uma vez resolvida a questão com a Lei (satisfeita, em Cristo, a sua justiça) e afastada de nós toda a condenação no Calvário, os nossos pecados não são mais transgressões, e Deus agora pode conduzir um tratamento de restauração em nossas vidas, cujo objetivo é a transformação renovadora da nossa consciência, para que compreendamos com a nossa mente aquilo que já aconteceu no nosso espírito e, assim, caminhemos no Espírito de Cristo, livres da condenação da Lei, sabendo discernir a vontade de Deus em toda e qualquer situação (Romanos 12:2), de modo que quando nos desviarmos para a direita, e quando nos desviarmos para a esquerda, os nossos ouvidos ouvirão, atrás de nós, uma palavra dizendo: Este é o caminho, andai por ele” (Isaías 30:21). E essa capacidade de discernimento é obtida, não pelo temor e observância da Lei, mas através de muita leitura e meditação nos ensinos do Senhor Jesus e dos apóstolos (I Timóteo 4:15).

Contudo, essa renovação espiritual da consciência não acontecerá de forma relevante enquanto não pararmos de ler a Bíblia como se ela fosse um código penal (apenas procurando mandamentos que digam – ou supostamente sugiram - o que não podemos fazer, a fim de saciarmos a nossa sede de lei e de juízo sobre o próximo), e não afastarmos do nosso coração o medo da condenação, bem como da nossa mente as artimanhas desse medo, pois esse espaço é preenchido pelo amor de Deus e pela nossa gratidão a ele, posto que tudo que se faz no Espírito se faz por amor, e não por medo. Se é por medo, não é por amor e não é pelo Espírito, pois no amor não existe medo. Antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor (I João 4:18), pois foi por amor que Deus abandonou toda a sua glória (Filipenses 2:7) e, como homem, ofereceu a sua própria vida (absolutamente santa) para satisfazer a condenação da Lei que pesava sobre nós, livrando-nos da morte eterna e, ao ressuscitar, fazer-nos co-participantes de sua natureza divina (II Pedro 1:3-4). É com muita gratidão a Deus por tão grande amor e com total confiança (fé), que devemos buscar e submeter-nos à transformação que gradativamente nos levará não somente a viver no Espírito, mas também a andar nele.

Contudo, esse processo de restauração do pecador - viabilizado na cruz do Calvário – não é muito bem compreendido nem aceito por muitos que se dizem convertidos, mas que, ainda embriagados com o vinho velho – a Lei (ninguém, tendo bebido o vinho velho, prefere o novo, porque diz: o velho é excelente! - Lucas 5:39) - vêem aqui o que é para eles uma inaceitável relativização do pecado. Para os tais, a Graça é um tanto confusa, frouxa e carente da exatidão da Lei. Ora, ora... Nada há de mais legalista do que tal postura, pois é a Lei que olha para o homem e apenas diz se ele está sadio ou doente. Nela, todo e qualquer pecado é para condenação eterna. Não há nenhum envolvimento nem possibilidade de restauração nem aperfeiçoamento, mas apenas análise, diagnóstico, condenação e morte eterna (Romanos 6:23).

Os pecados de quem está debaixo da Graça de Cristo (renascidos no Espírito – João 3:1-8) não são mais motivos para condenação (Romanos 8:1), pois não são mais transgressões da Lei. Eles são agora uma questão de desobediência ao padrão (amor) no qual Deus quer que andemos. E esse processo de adaptação a esse novo padrão - o ser nova criatura - não pode acontecer sob o absolutismo condenatório da Lei, por isso ela está morta para os que estão em Cristo Jesus.

Chamar de relativização do pecado o processo divino de restauração do pecador requer realmente muita coragem, pois quem apregoa o rigor da Lei (infalibilidade) para os outros puxa para si esse mesmo rigor (Mateus 7:2), trazendo sobre a própria alma angústias, culpas e sofrimentos que são absolutamente desnecessários.

Além disso, o medo da condenação apenas leva o pecador a esconder e não tratar do seu pecado, e a não ser transparente e verdadeiro diante dos homens, pois o ser humano simplesmente não suporta nem aceita a verdade acerca de si mesmo (imagine com medo da condenação!). Aquele que disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (João 14:6) também disse: “Vim causar divisão entre o homem e seu pai, entre a filha e sua mãe, e entre a nora e sua sogra” (Mateus 10:34-36). Portanto, a verdade pode causar divisão, sim; mesmo entre as pessoas mais próximas (entre as não tão próximas, então...). Muitas vezes, a divisão é o primeiro efeito da verdade, a sua primeira conseqüência. Mas, ainda assim, a verdade é amor, pois aquele que se quebranta e a aceita encontrará o descanso e a paz que ela proporciona aos que nela vivem.

Contudo, não é verdadeiro diante de Deus quem não é primeiramente diante dos homens. Deus quer tratar dos seus pecados reais, com você mesmo, com você de verdade, e não com um cristão virtual (um impostor) que você tenha criado para apresentar apenas no convívio da igreja. Deus quer muito de você, mas ele não quer que você se apresente como alguém que você, na verdade, não é. A cura da sua alma começa aqui...

Deus prefere verdades horríveis a lindas mentiras, pois o campo de ação dele em nossas vidas é a verdade. De modo que as igrejas precisam favorecer e encorajar essa transparência, já que Deus sempre esteve interessado justamente em quem se reconhece doente (Mateus 9:12), e não em quem finge ter saúde. Ele sempre quis sarar as feridas de quem se reconhece enfermo.

As transgressões do homem impediam a sua reconciliação com o seu santo e perfeito Criador (até entre Deus e o seu próprio filho - igualmente santo e perfeito - houve separação no momento em que este recebeu sobre si todas as transgressões da humanidade - Marcos 15:34). Por isso, movido por seu infinito amor, ele mesmo assumiu as transgressões humanas (II Coríntios 5:19), a conseqüente condenação e ainda sofreu a execução da pena que seria nossa. A Lei e a sua justiça meritória são um caso encerrado para todos aqueles que crêem, nos quais o Pai e o Filho fizeram morada (João 14:23). Em Cristo, o amor de Deus reconquistou o que, por causa das transgressões, estava dividido e separado por um abismo intransponível para o homem. Tal fato aconteceu historicamente há dois milênios, mas, por desígnio divino, a Graça nos foi dada, em Cristo, antes dos tempos eternos (II Timóteo 1:9), antes que o homem fosse criado e ainda muito antes que houvesse lei.

Deus já criou o homem com o acesso aberto para restaurá-lo. Não cabe, portanto, atribuir a ele uma inflexibilidade que é tão-somente da Lei (e a Lei não é Deus), e ainda debochar do processo divino de resgate do pecador, acusando o próprio Deus de relativizar o pecado. Tal postura passa ao mundo uma imagem divina que, de forma alguma, corresponde à realidade, pois apresenta características que são da Lei, e não de Deus. E o mais trágico é que esse des-serviço ao Evangelho de Jesus Cristo é “prestado” exatamente por muitos daqueles que receberam a missão de pregar nada menos do que o amor de Deus pelos pecadores. Ora, tais acusadores é que, julgando-se espirituais, são ainda escravos da lei e permanecem afundados em seu farisaísmo carnal, pois, tal qual a lei que ainda os domina (Romanos 7:1), eles apenas mantêm o dedo apontado para quem julgam estar em pecado.

O homem não é pecador porque peca. Ele peca porque é pecador. E, ao longo de sua vida, ele apenas acumula a sujeira do pecado em sua pele. Essa sujeira (a transgressão da Lei) – e não o pecador – tem um forte mau cheiro, insuportável para Deus, de modo que, mesmo amando o pecador (transgressor da Lei), ele não pode limpá-lo. Entretanto, quando o pecador crê em Cristo e nele renasce (morrendo para a Lei), essa mesma sujeira perde o mau cheiro diante de Deus (deixa de ser transgressão da Lei), e ele, então, começa o processo de limpeza, que acontece de modo diferente e em tempos diferentes em cada um de nós.

Deus rejeita e sempre rejeitará o pecado, mas precisamos entender e aceitar que, embora as mentes ainda espiritualmente turvas e autojustificadas imaginem o contrário, a força do pecado é a Lei (I Coríntios 15:56). Por isso nós, os que cremos, morremos para ela (Gálatas 2:19) e não somos mais transgressores. Deus agora olha para nós através do seu filho Jesus e, apesar dos nossos pecados (que não são mais transgressão da Lei), ele pode cuidar de nós, segurar-nos pela mão e ensinar-nos a andar no Espírito, com a sua vontade escrita, não em tábuas de pedra, mas em nossas mentes e corações (Hebreus 8:10-11).

Cristo é a lente que permite que Deus nos enxergue sem ver os nossos pecados como transgressões (pois quem está em Cristo morreu para a Lei) e, dessa forma, deles não tenha mais lembrança (Hebreus 8:12). Para ele, somos – os que cremos - tão puros quanto ele é puro (I João 3:3). E, como para quem está em Cristo não há mais lei nem condenação (Romanos 8:1) nem os nossos pecados são mais transgressões, não há mais empecilhos para que Deus se achegue a nós a fim de curar a nossa alma. Nossos pecados são como feridas remanescentes da nossa velha natureza (que só será aniquilada no encontro com Cristo), das quais Deus agora pode tratar, pois elas não ficam bem em alguém que renasceu no Espírito de Deus. E nesse processo, Deus usa muitos auxiliares; entre eles, eu e você. E ele espera que cuidemos uns dos outros, em amor (Gálatas 6:2).

Na carta de Paulo aos Gálatas (5:16-26), o apóstolo esboça uma lista de obras da carne e uma de frutos do Espírito. Ele lembra ainda que as tais obras da carne são caracteristicamente praticadas por aqueles que não herdarão o reino de Deus (v 21). E esse é o motivo apontado pelo apóstolo para que os que – pela Graça, mediante a fé - herdaremos o reino de Deus não as pratiquemos, pois vivemos no Espírito e devemos praticar obras cujos frutos estão na segunda lista, de modo que vivamos e também andemos no Espírito (v. 25).

Como algumas dessas obras da carne ali citadas por Paulo são práticas inegavelmente comuns na igreja (as que se pode esconder), a coerência entre o que cremos (nosso espírito) e o que praticamos (nossa mente) é precisamente o objetivo do processo diário de renovação da nossa consciência, ao qual devemos estar submetidos e sempre atentos.

Mas uma das melhores conseqüências da obra no Calvário é que Deus agora é otimista para conosco. Sim, é verdade... Enquanto muitos de nós ficam olhando para a Lei, cheios de temor e pensando: “Será que vai dar?”, Deus é extremamente otimista conosco, em tudo, e confia na nossa vitória, porque, em Cristo, já somos vitoriosos (I Coríntios 15:57 – I João 5:4). Deus é otimista com relação a você e com relação a mim. E isso porque, diferente de nós, ele confia totalmente no processo que criou para regeneração da sua criação favorita. Ele confia a ponto de ter dado a própria vida para que o processo de resgate dela fosse viabilizado.

 

VII - MAS, E OS NOSSOS PECADOS?

 

Quanto aos nossos pecados, não devemos, de forma alguma, preocupar-nos com eles sob a perspectiva de condenação eterna. Na verdade, estaremos ofendendo ao Senhor se agirmos dessa maneira, pois estaríamos desprezando e anulando o seu sacrifício no Calvário (Gálatas 2:21), onde ele afastou definitivamente a possibilidade de condenação de todo aquele que crê (Romanos 8:1). Pecamos, portanto, se consideramos a possibilidade de sermos condenados pelos nossos pecados. Ficarmos tranqüilos quanto à impossibilidade da nossa condenação - em qualquer situação - é perfume agradável ao nosso Deus, pois isso é precisamente a essência do que a Bíblia chama de em Jesus Cristo, e só se pode prová-la nos piores momentos de angústia, dúvidas e incertezas, quando, sem ela, daríamos lugar ao desespero. Todos os demais aspectos da fé provêm dessa confiança inabalável na suficiência da obra de Cristo para a nossa salvação e, sem fé, não se pode agradá-lo (Hebreus 11:6).

Os nossos pecados (ainda reais) não são mais uma transgressão da Lei. E isso simplesmente porque, para nós, a Lei não mais existe, e não se pode transgredir o que não existe (Romanos 4:15). Tudo acabou no Calvário, mas só nós ressuscitamos com Cristo, e agora como novas criaturas, para as quais tudo se fez novo (II Coríntios 5:17). Estamos absolutamente livres do estatuto das transgressões e da morte (Romanos 8:2) e vivemos agora uma nova vida, sem possibilidade de condenação, mas em constante processo de aperfeiçoamento no Espírito, que pode, este sim, nos dar (e efetivamente nos dá) a vitória contra o pecado.

Na cruz do Calvário, Cristo já sofreu a “punição” pelos nossos pecados. Agora somos filhos amados, precisamos de “correção”, e o Pai corrige a quem ama (Hebreus 12:5-6). E como qualquer pai zeloso, à medida que vamos crescendo em discernimento espiritual, Deus espera que nos corrijamos a nós mesmos, para que ele não precise interferir (I Coríntios 11:31-32). Quem não prevê nem admite nenhuma queda pelo caminho é a Lei. Ela exige perfeição linear e absoluta, para todos, sem um tropeço sequer (Tiago 2:10). Diferentemente da Lei, Deus sabe e reconhece que ainda cairemos, mas, de modo algum, nos abandonará nem permitirá que pereçamos (João 10:28). Foi exatamente por isso que ele sofreu a condenação em nosso lugar (ora, se fosse possível não cairmos, viveríamos pela Lei, sem precisarmos da Graça de Cristo!). Deus se coloca ao nosso lado para nos erguer e quer que aprendamos a caminhar com equilíbrio.

Obviamente, devemos evitar as quedas, mas, uma vez caídos, o levantar-se para caminhar corretamente glorifica a Deus e ao seu filho, o Senhor Jesus. Ele é longânime, paciente e misericordioso, por isso muitas vezes nos parecerá que ele não está vendo o nosso pecado. Mas ele está apenas dando um tempo para que tomemos, nós mesmos, a atitude correta – o arrependimento - como adultos no Espírito. Mas, saiba, se não nos arrependermos do pecado, mais cedo ou mais tarde, ele interferirá, e fará isso, não segundo a frieza e a generalização (coletivização) da Lei, mas individualmente, na medida certa da nossa necessidade, pois ele sonda os nossos corações e sabe a dose exata do “remédio” de que precisamos, havendo, certamente, disciplina dura para os duros de coração e tardios em arrepender-se.

Deus não está, portanto, de forma alguma, obrigado a exercer a sua disciplina de modo satisfatório a corações carnais, legalistas e farisaicos que nada tenham a ver com o problema. O disciplinado seguramente sentirá a mão de Deus, mas, para decepção dos sedentos de lei e de juízo (sobre o próximo...), ele faz isso por amor, para restauração, e não para condenação.

Quem se julga a si mesmo e se arrepende do erro sem demora não precisa de disciplina (I Coríntios 11:31). Entretanto, em todo aprendizado há o risco de falhas e, além disso, o caminho que não admite a possibilidade de queda por parte do pecador é o caminho da Lei...

Não devemos temer a condenação pelos nossos pecados, mas devemos rejeitá-los sempre, com firmeza, pois, se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito (Gálatas 5:25), fazendo tudo com amor ao próximo (I Coríntios 16:14), levando as cargas uns dos outros (Gálatas 6:2) e sofrendo o dano (I Coríntios 6:7). Se pecarmos, temos um advogado competentíssimo junto ao Pai (I João 2:1), mas sempre corrijamo-nos a nós mesmos (resolvendo também a questão com as possíveis vítimas do nosso pecado), conscientes de que, se morremos para a Lei e não estamos mais sujeitos à condenação, temos um sério compromisso com a nossa credibilidade como renascidos em Cristo (I Coríntios 9:27), de modo que sejamos (sem autopropaganda) verdadeiramente reconhecidos como pessoas cuja maior característica é o amor ao próximo (João 13:34), e que são testemunhas (evidências, exemplos, provas vivas) da transformação que Deus pode realizar em todo pecador.

Para o renascido em Cristo, a Graça que ele recebe de Deus é suficiente; é motivo de grande júbilo e plena satisfação, de modo que ele não espera recebê-la de homens, mas busca sempre repassá-la ao próximo, e não usufruí-la sobre o próximo, tirando vantagens premeditadamente da sua condição de perdoado. Andemos tranqüilos e na paz de Cristo, pois ele nos perdoa, não apenas sete vezes, mas setenta vezes sete (isto é, sempre!). A condenação não mais existe, pois, no Calvário, já fomos totalmente perdoados, antecipadamente. Mas a questão é: você quer usufruir o perdão com ou sem a disciplina do Senhor (I Coríntios 11:31-32)?

E quando vir um irmão caído, em vez de sentenciá-lo, chegue junto a ele e erga-o pela mão (Mateus 7:12), aconselhando-o com amor e longanimidade (II Timóteo 4:2), para que ele se levante e Deus não tenha de interferir no pecado dele. Agindo assim, você garantirá a mesma mão amiga quando você cair e, creia, os dois cairão cada vez menos.

Em todo processo de aperfeiçoamento o objetivo é fazer melhor na ocasião seguinte. E se a ocasião seguinte pode e deve ser melhor do que a anterior é porque a anterior obviamente não foi satisfatória. Portanto, todo processo de aperfeiçoamento parte necessariamente do reconhecimento de que haverá atitudes insatisfatórias, que poderão e deverão ser aperfeiçoadas. E, como sabemos, a vida cristã é um processo de aperfeiçoamento, onde devemos buscar a perfeita sintonia entre a nossa mente e a nossa nova realidade espiritual, para que vivamos e andemos com fé em Cristo, guiados pelo Espírito, e orientados pelo misericordioso amor de Deus.

Mas isso vale também para o pior pecador, aquele mais sujo do qual já ouvimos falar. E, no mundo religioso, onde o único reconhecido e valorizado é o mais “santo”, mesmo quem entende a Graça intelectualmente leva algum tempo (às vezes, muito tempo) para recondicionar a sua mente legalista às novas condições da Graça de Cristo, vindo a relaxar totalmente o seu espírito e a ter prazer nessa nova realidade, dedicando-se inteiramente a ela.

O apóstolo Paulo deu-nos uma ótima dica de como trabalhar melhor essa questão: considere a si mesmo o pior dos pecadores (I Timóteo 1:15) e, assim, você aceitará com mais facilidade o perdão de todos os outros.

 

VIII - A MENTE AUTOJUSTIFICADA

 

Assim, meus irmãos, também vós morrestes relativamente à lei, por meio do corpo de Cristo, para pertencerdes a outro; a saber, aquele que ressuscitou dentre os mortos e, deste modo, frutifiquemos para Deus (Romanos 7:4)

 

A expressão “A Morte da Lei” costuma causar um certo mal-estar nas pessoas, pois como pode alguém sequer mencionar e ainda insinuar que seria benéfica a morte de algo que é santo, justo e bom (Romanos 7:12)? Mas a necessidade da morte da Lei (o fim de sua validade [como referencial de julgamento sobre nós, decretada por Cristo no Calvário, para viabilizar a nossa salvação] e sua mortificação [processo de abandono dos julgamentos pela sua justiça, que deve ocorrer na nossa mente, para que possamos amar ao próximo de maneira incondicional]) é um ensino muito claro nas cartas paulinas.

O ministério do apóstolo dos gentios teve como maior característica a luta para que os judeus convertidos ao Evangelho abandonassem o jugo da Lei, bem como os cristãos gentios a ela não se submetessem.

Ora, a Lei Mosaica foi dada exclusivamente para o povo de Moisés (Deuteronômio 5:2-3; Romanos 9:4), mas a validade da sua justiça acaba no instante em que o judeu (ou o gentio que a ela se submeteu – Gálatas 3:12; 5:3) a substitui pela justiça do descendente (Gálatas 3:19), que é Cristo. Da mesma forma, o gentio que nunca se colocou debaixo do jugo mosaico fica livre de qualquer forma de justiça meritória (para justificação diante de Deus) quando - crendo no sacrifício vicário (substitutivo) do Cordeiro - recorre à justiça do Calvário, ou Justiça de Deus.

Mas resta ainda o jugo da autojustificação, gerado pela justiça da lei, e que, segundo Paulo, domina o homem natural enquanto ele vive (Romanos 7:1). Observe que aqui o apóstolo não fala de validade da lei, mas do seu domínio (controle que determina as ações) sobre o homem, induzindo-o incessantemente à autojustificação e direcionando para longe dos propósitos de Deus os seus julgamentos e sentimentos para com o próximo.

Na sua própria carne Cristo aboliu (extinguiu, decretou o fim da validade) a Lei, de modo que nosso espírito está totalmente livre do fardo de sua justiça meritória (Efésios 2:15), mas ainda precisamos libertar a nossa mente do seu jugo (domínio) legalista, substituindo-o pelo jugo de Cristo, para que em nós seja vivificado o Espírito de Deus e, efetivamente, tornemo-nos novas criaturas - que servem em novidade de espírito e não na caducidade da letra (Romanos 7:6) - para as quais as coisas velhas já passaram e se fizeram novas (II Coríntios 5:17).

Mas o que seria, exatamente, livrar-se do jugo da Lei, ou morrer para ela (Gálatas 2:18-19; Romanos 7:4)?

Todo o universo funciona mediante regras. Leis naturais de causa e efeito regem tudo que existe. Há uma conseqüência equivalente e justa para cada ato, e é este o princípio natural (e correto – Gálatas 6:7) de justiça, que está gravado no coração do homem natural, ou carnal. Quem anda conforme as regras usufrui a recompensa equivalente; quem as desobedece, ou as ignora, também sofre (merecidamente) as óbvias conseqüências.

Essa lógica legalista (proveniente de lei) é inata e profundamente intuitiva ao homem natural, de modo que, em qualquer situação, a sua primeira percepção e primeira análise (julgamento) será automaticamente mediante a justiça da lei. Daí a sua dificuldade em discernir as coisas espirituais, pois elas não se encaixam nessa lógica (I Coríntios 2:14). Justiça, injustiça, santidade, impiedade, sucesso, fracasso, sensatez, insensatez, coerência, incoerência, miséria, prosperidade... Tudo isso é racionalizado e compreendido pelo homem natural, segundo a lógica individualista, meritória e justa do legalismo que lhe é natural. Em nenhum momento a Bíblia diz que a justiça meritória – que provém de lei - não é justa. Mas, em Cristo, ela foi totalmente satisfeita em favor do que crê, para que pudéssemos viver pela Justiça de Deus, que é superior (Hebreus 8:6) e provém da fé (Filipenses 3:9).

No centro da lógica legalista estão o merecimento e o direito adquirido. São eles o principal foco de atração da justificação pelo bom desempenho diante de leis e regras. O ser humano já nasce julgando-se merecedor das coisas boas da vida (o melhor brinquedo, a mãe mais bonita, a(o) namorada(o) mais atraente, o melhor emprego, a(o) esposa(o) mais digna(o), os filhos mais lindos e mais inteligentes, o melhor carro, a melhor casa, a melhor aposentadoria, o melhor cemitério e, finalmente... o céu). Mas, intuitivamente, muitos sentem que não basta a lei da semeadura e da colheita (apresentar saldo positivo diante de Deus) para garantir-lhe a merecida obtenção de tudo isso. O direito adquirido precisa ser legitimado de forma mais profunda e segura. A religião é o lugar e o suposto tutor dessa legitimação, e a igreja tem - historica e convenientemente - aceitado tais tentativas de legitimação de direitos como conversão (através da obediência a regras de conduta e privação da vida social extra-igreja), criando uma comunidade que, obviamente, se caracteriza pela arrogância espiritual (direito ao céu legitimado em si mesmo), e não pelo amor ao próximo, que só nasce do pleno reconhecimento da total ausência de méritos próprios.

Mas é assim, em conformidade com a lei meritória, que funciona tudo na sociedade humana. É assim que se cria uma sociedade civilizada. Foi assim (através da Lei Mosaica, exclusiva do povo de Moisés) que Deus formou e preparou um povo para receber o seu Filho. A vontade dele para nós é igualmente que sejamos cidadãos que andam conforme as leis de nosso país e que criemos nossos filhos de modo a formar homens e mulheres que amam o caminho da retidão. Sociedade humana sem obediência a leis e regras e sem consciência de direitos e obrigações é o caos...

Com tudo isso, a obediência a regras e mandamentos - ainda que estejam na santa, justa e boa Lei Mosaica (Romanos 7:12) - pode tornar-se algo destrutivo para o espírito humano. Basta que ela exceda o seu papel de educar na justiça (II Timóteo 3:16) e assuma a pretensão de justificar o homem diante de Deus (Romanos 4:2).

Apesar de não fazer idéia de onde está se metendo (Gálatas 3:10), é igualmente intuitivo ao homem natural atribuir à lógica legalista a capacidade de justificá-lo diante de Deus. Ele não enxerga que essa justificação exige perfeição absoluta (Tiago 2:10), de modo que, pelo desempenho na lógica meritória natural, ninguém será justificado (Gálatas 2:16).

Esse auto-engano, além de levar à condenação, é profundamente danoso à alma humana e cria dois seres distintos: um profundamente arrogante (Romanos 3:27) e manipulador, e um outro, inseguro, medroso e manipulável. Ambos são cegos, mas, via de regra, um será guia do outro. O primeiro se julgará justificado por sua aparente obediência (apenas exterior) a estatutos legais e morais, e se sentirá apto para liderar. O segundo – ainda inseguro de sua justificação e manipulável como um boneco – colocará, espontaneamente e em diversos níveis, a sua vida nas mãos do primeiro, que será o admirável líder a guiá-lo no seu caminho. Em busca do direito ao céu, ambos cairão no barranco (Mateus 15:14).

O princípio meritório legalista está presente em tudo, e a sua utilização correta é sempre lícita e proveitosa para o homem (é o justo princípio da lei), como, por exemplo, o pai que, para satisfazer certas vontades do filho, estipula como condição o bom aproveitamento na escola ou o cumprimento de algumas tarefas em casa, etc. É a justa lei do mérito educando o homem.

Mas em todo lugar há pessoas com o senso de observação mais aguçado, que cedo identificam a convicção de merecimento do ser humano e a sua busca por legitimação do “direito adquirido” e, de variadas formas, manipulam as situações para satisfação de seus objetivos pessoais.

Nas conquistas amorosas, por exemplo, a manipulação dá-se em um jogo de interesses de ambas as partes. Aqui, basta sugerir que o alvo da conquista já tem merecimento (ou direitos) só por seus atributos físicos naturais. De um modo geral, ressaltar o merecimento tem sido o método utilizado pelo homem (provavelmente desde Adão) para conquistar uma mulher. E ela merece o quê? Ora, tudo de bom que a mente humana consiga imaginar. Inclusive tudo aquilo que nem trezentos conquistadores juntos conseguiriam realizar para aquela que é o alvo da conquista.

Mas o conquistador nem precisa trazer à realidade tudo a que a “princesa”, por mérito natural, teria direito. Basta, sabiamente, manter o clima de merecimento. E isso pode funcionar por alguns anos, até que a “merecida” - decorrido um tempo considerável (que varia de conquistada para conquistada) - faça uma avaliação e veja que mimos, aos quais teria “direito”, ela já recebeu, e qual a possibilidade de receber os que lhe faltam, no tempo que provavelmente ainda lhe resta. Caso essa avaliação seja negativa, o conquistador conhecerá e vivenciará as conseqüências de seu engano, pois experimentará o que é viver com uma “merecida insatisfeita, frustrada e enfurecida” (Provérbios 21:19, 27:15-16).

Relacionamentos iniciados e mantidos sob tal distorção da realidade (se não houver mudança) são fadados ao fracasso, mesmo que, por vários motivos, a encenação se prolongue até que a morte os separe. Entre outros problemas que têm tornado difícil e rara a durabilidade dos casamentos está a auto-imagem distorcida que o amor romântico pode gerar nos indivíduos. Viver com quem amamos apaixonadamente torna a vida muito mais leve e alegre, e o romantismo pode e deve ser cultivado. Mas, para que esse sentimento não se torne algo doentio e destrutivo, ele precisa estar bem ajustado à exata realidade do ser humano. O amor romântico pode – e deve – voar para que seja belo e valha a pena, mas com os pés firmes no chão, sem alimentar nem aceitar e sucumbir a falsas imagens.

Um outro tipo de manipulaçõo dá-se quando algumas dessas pessoas (que identificam mais nitidamente a tentativa humana de legitimar direitos) enxergam um pouco mais além dos relacionamentos simples e, desejando ampliar o seu campo de ação, tornam-se, por exemplo, líderes religiosos, supostamente capazes de trazer ao povo a desejada e merecida prosperidade (eles vêem que a religião é o principal legitimador da justiça meritória). Por que manipular e obter vantagens apenas da esposa, dos filhos e dos amigos, se é possível manipular e explorar uma multidão inteira? Por que sugar o melhor de uns poucos, se é possível sugar tudo e de tantos ao mesmo tempo? Ora, onde há miséria (ou o medo dela) há sede de prosperidade. A farra é aqui...

A idéia básica é: “Você merece tudo e eu sou o intermediário dessa negociação”. O risco é claro, e o mais ingênuo dos fiéis (contribuintes) está ciente disso. Mas a idéia do merecimento é tão fortemente alimentada e tão compulsivamente induzida - e cai como uma luva na mente legalista do povo (mérito por obediência a regras) - que a visão do risco se minimiza até o esquecimento. Afinal, pensar nele seria falta de fé...

O objetivo principal (redirecionar a fé [da justificação em Cristo para a prosperidade], desviando o mérito da pessoa de Cristo [trazendo-o de volta ao homem]) é disfarçado através da citação eventual de textos bíblicos que até parecem contradizer o “espírito da coisa”. Até a “perigosa” palavra Graça é ouvida de vez em quando. Mas é tudo na medida certa, previamente estudado, só um pouquinho, de modo que pareça algo verdadeiramente relacionado ao Evangelho de Cristo (para tentar dar legitimidade ao engodo e calar os que advertem as suas vítimas), mas que, na verdade, é apenas um golpe que alimenta e tira proveito de um povo sedento do mérito e da justiça que provém da Lei, e não da absurda e injusta (anuladora do mérito humano) Justiça do Calvário (Mateus 20:1-16).

Por isso em tais ambientes religiosos predominam as coisas da Lei. As citações e os textos lidos são predominantemente do Velho Testamento. Praticamente todas as referências são a Israel. O visual do recinto geralmente assemelha-se ao templo judaico. As histórias mais ouvidas são as aventuras hebraicas com recompensa final pela obediência ou o duro castigo pela desobediência (Tito 1:14). As palavras de ordem são:

- “Você merece!”

- “Você tem direito!”

- “Você obedece (às nossas regras) e Deus fica obrigado a lhe recompensar!”

- “Deus vai trazer os teus inimigos para debaixo dos teus pés!”

- “Deus quer que você tenha sucesso!”

- “Deus quer que o seu povo seja rico!”

- “Deus vai te dar a terra prometida (aqui na Terra, tal qual aos judeus), onde mana leite e mel!”.

A Lei, com sua lógica meritória e legalista, é intuitiva ao homem natural. A Graça, com sua justificação exclusivamente pela fé, não é intuitiva ao homem natural. Ele precisa passar por um processo de mudança de valores. Precisa substituir o mérito próprio pelo mérito de Cristo.

A Justiça do Calvário gera uma nova criatura em Cristo (humildade, misericórdia e amor ao próximo). A justiça própria gera apenas o religioso (arrogância espiritual, falsa humildade, orgulho e hipocrisia).

Mas quem está interessado em amar ao próximo, e não em manipulá-lo, seja ele quem for? Quem está interessado em uma vitória sentida e celebrada mesmo no fracasso? Quem está interessado em uma inexplicável paz que excede todo entendimento (Filipenses 4:7), pois se pode senti-la mesmo em meio a grandes e inevitáveis tribulações (João 16:33)? Quem está interessado em abrir mão de direitos? Quem está interessado em sofrer o dano? Quem está interessado em oferecer a outra face ao que lhe bate no rosto? Quem está interessado em bendizer os que o maldizem? Quem está interessado em amar seus inimigos, em fazer o bem aos que o odeiam e orar pelos que o caluniam? Quem dará também a túnica ao que lhe toma a capa? Quem verá sensatez em ser benigno até com os ingratos e maus?

Esta é a misericórdia do Pai Celeste, mas quem quer ser perfeitamente misericordioso como ele (Mateus 5:38-48; Lucas 6:27-36)? Quem entenderá que há Justiça de Deus em tudo isso? Quem se alegrará com estas coisas? Quem desejará esta loucura?

Pessoas que têm como referência espiritual os mandamentos da Lei e intuitivamente confiam na sua justiça meritória (João 5:45) vêem essas palavras de Jesus (em Lucas 6:27-36) como sugestões divinas opcionais para quem, por acaso, estiver interessado em uma vida espiritual fora da realidade, mas poeticamente admirável, e não como mandamentos do Senhor para a sua Igreja. Ora, mandamentos bons e proveitosos mesmo são os da Lei, que supostamente geram direitos diante de Deus, inclusive o de julgar o próximo...

A Graça e o amor de Deus descem gratuita e incondicionalmente do seu trono até nós, mas é totalmente inútil e equivocada qualquer tentativa de retribuição desse amor diretamente ao próprio Deus, através de gestos, ritos e rotinas meramente religiosas, achando que assim estaremos quites com ele. Toda manifestação, exteriorização ou tentativa de retribuição do amor de Deus, de sua misericórdia e do seu perdão deve ser direcionada ao próximo. É esta a sua vontade, é este o seu mandamento e a sua lei... (Mateus 25:31-46)

Mas é aqui também que, para muitos, a Graça começa a perder o encanto e deixa de ser maravilhosamente atraente, pois ela implica uma mudança assombrosa (aterrorizante para o homem natural) no seu conceito de justiça. Na contra-mão da justiça da Lei, a Justiça de Deus leva-nos muitas vezes a, de várias formas, abrir mão da justiça meritória quando esta nos favorece e, ao mesmo tempo, exige que busquemos o favor dos injustiçados. Antes de sair arrotando ameaças em nome da “Justiça de Deus”, convém saber que ela tem a ver com “abrir mão dos próprios direitos em favor do próximo” (mesmo quando esse “próximo” é nosso inimigo), e não com justiça meritória (Mateus 5:38-39).

A tentativa de procurar estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitando à Justiça de Deus (que é a do Calvário – Romanos 10:3-4), expõe o homem à severidade de Deus (Romanos 11:22), posto que estará rejeitando a sua bondade (benignidade). Mas a intuição do homem autojustificado o avisa de que a Justiça do Calvário vai esmagar a sua arrogância (Romanos 3:27) e deixá-lo na mesma condição que adúlteros, assassinos, estupradores, ladrões e traficantes de droga, e isso é extremamente injusto e uma loucura absolutamente inaceitável diante da justiça meritória do homem natural, que pode ter reações que vão desde a exclusão da convivência até a conspiração para a desmoralização ou para a própria morte de quem alardeia tal sandice (Atos 7:54).

Ora, anulados todos os nossos méritos e deméritos, resta-nos tratar o próximo como gostaríamos de ser tratados (Lucas 6:31). E isto não é uma sugestão divina, mas um mandamento de Cristo.

Diferente do estatuto mosaico, os ensinos de Jesus e dos apóstolos foram proferidos em meio a conversas informais, à medida que os assuntos apareciam em situações reais, geralmente em confrontações com ordenanças mosaicas. Em algumas ocasiões, os apóstolos os chamaram de mandamentos do Senhor, mas raramente o caminho a ser trilhado na Graça foi chamado de “Lei”; vocábulo que, em toda a Bíblia, refere-se caracteristicamente ao estatuto Mosaico.

E por que aconteceu isso? Para que ficasse claro que a justiça do Calvário não provém de lei, mas de fé (Filipenses 3:9), e também para que (o que, infelizmente, acabou acontecendo) os cristãos não olhassem para os ensinos do Senhor Jesus e dos apóstolos com olhos legalistas e ainda autojustificadores, enxergando-os com lentes meritórias, estabelecendo punições (penitências) para expiação da culpa e (desprezando o discernimento do Espírito) exigissem, por exemplo, a infalibilidade legalista em funções e situações cujos perfis são humanamente inatingíveis (sem falhas) em sua completude, pois correspondem (como tudo no Evangelho) ao que seria o perfil do próprio Cristo naquela função ou situação (Cristo como presbítero ou bispo [Tito 1:6-9; I Timóteo 3:2-7], como marido [Efésios 5:25], como esposa [Efésios 5:22], como homem idoso, como mulher idosa, como jovem, como servo [Tito 2:2-10], etc). O princípio fundamentado na essência do Evangelho é que a misericórdia triunfa sobre o juízo (Tiago 2:3).

Há que se ter discernimento ao tratar de questões de aptidão para funções na igreja e demais posturas para um discípulo de Jesus. Paulo indicou-nos o referencial perfeito para tudo, mas suas instruções não são leis que exigem perfeição absoluta.

Ora, se fosse a perfeição indispensável, como poderia ser “o apóstolo dos gentios” alguém que corajosamente reconheceu: “não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (Romanos 7:19)? Como poderia determinar perfis e posturas para discípulos e para a liderança da igreja alguém que assumiu ser o principal dos pecadores (I Timóteo 1:15), e que, ainda assim, declarou: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (I Coríntios 11:1)?

Estaria Paulo brincando de ser humilde ou apenas revelou, na descrição de sua auto-imagem, a consciência (reconhecimento) de sua natureza pecadora, que o desautorizava (e a todos nós) a julgar o próximo? Ora, se não há ninguém perfeito, a adequação aos perfis das funções na igreja são obviamente uma questão de discernimento corajoso, e não de lei absolutista...

Paulo, ex-fariseu “com PhD” nas melhores instituições de ensino jurídico de sua época, era profundo conhecedor da Lei e sabia que leis são promulgadas para os mais diversos tipos de transgressores, e não para justos (I Timóteo 1:9). Ora, se somos justificados (declarados justos) em Cristo, somos filhos de Deus, guiados pelo Espírito (Romanos 8:14) - que é quem convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo (João 16:7-8), e não a Lei, que apenas realça o pecado (Romanos 7:5) e avulta a ofensa (Romanos 5:20). E, se somos guiados pelo Espírito, não estamos debaixo da lei (Gálatas 5:18), mas somos transformados pela renovação da nossa mente (libertando-a da lógica meritória legalista), compreendemos (Efésios 5:17) e experimentamos a boa, perfeita e agradável vontade de Deus (Romanos 12:2), escrita pelo Espírito, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos nossos corações (II Coríntios 3:3).

É o amor de Cristo que nos constrange (II Coríntios 5:14), não precisamos da Lei. Temos um Senhor, cujo Espírito habita em nós, e que, renovando a cada dia a nossa mente, capacita-nos a discernir o que convém (I Coríntios 6:12), segundo a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Romanos 12:1).

Entretanto, em seu ministério, Paulo conviveu (e combateu) diariamente com a sede que muitos dos convertidos (principalmente judeus) ainda tinham de lei, levando-os a temer e levar mais a sério os mandamentos mosaicos do que os ensinos dos apóstolos. Então, a fim de chamar a atenção dos tais para a seriedade e legitimidade dos seus ensinos (I Coríntios 14:37), bem como para a maior glória do ministério da justiça de Deus (II Coríntios 3:7-9), Paulo chamou o Evangelho de lei de Cristo (I Coríntios 9:21; Gálatas 6:2), lei do Espírito da vida (que, aliás, nos livra da Lei do pecado e da morte - Romanos 8:2) e, ainda, lei de Deus (que guerreia contra a lei meritória, que aprisiona ao pecado - Romanos 7:22-25), à qual o homem não pode estar naturalmente sujeito (Romanos 8:7).

Quem só compreende e se submete às coisas por força de lei (e acha que só o amor não basta, pois a igreja precisa também da Lei Mosaica), saiba que os ensinos de Jesus e dos apóstolos não são apenas sugestões e conselhos, e que a “Lei de Deus, de Cristo e do Espírito da Vida”, em todos os seus mandamentos, exige que rejeitemos a nossa justiça própria (meritória e arrogante) e, sujeitando-nos à justiça do Calvário, deixemos de julgar o próximo e o amemos como a nós mesmos, tendo em Cristo o exemplo de mansidão e humildade (João 11:29).

O Evangelho não tem por finalidade criar seguidores de estatutos morais e éticos. Não é este o seu papel nem nunca foi este o seu objetivo. O Evangelho transforma seguidores e não seguidores de estatutos morais e éticos em novas criaturas, as quais, mediante o reconhecimento da exclusividade dos méritos de Cristo e da plena consciência de sua igualdade com o seu semelhante, vão sendo gradativamente transformadas, substituindo a arrogância espiritual e a maldade pela humildade e sujeição à boa, perfeita e agradável vontade de Deus (Romanos 12:2), tornando-se, desse modo, pessoas caracterizadas pelo amor incondicional ao próximo.

Este é o fardo leve de Cristo (Mateus 11:28-30), que só é buscado e aceito com alegria por aqueles que reconhecem quão pesado é o fardo da Lei. Apesar das constantes acusações da sua consciência, a arrogância de quem tem a mente dominada pela justiça meritória (justiça própria) o induz a sentir-se bem sob o seu jugo e a considerar o fardo de Cristo (viver conforme a Justiça do Calvário) insuportavelmente mais pesado do que o fardo da Lei.

Viver a Justiça do Calvário liberta do domínio do pecado (Romanos 6:14) e evidencia a justificação em Cristo. Viver a justiça meritória da Lei, ainda que acobertado pelo cristianismo religioso, evidencia o quê?

Abandonar o jugo da Lei e tomar o jugo de Cristo é precisamente a decisão de mudar a nossa intuição natural e imediata, do mérito legalista e julgador para o amor incondicional com que Deus nos amou, sendo nós ainda transgressores (Romanos 5:8). A Lei já morreu na cruz do Calvário, mas nós a mortificamos em nossa carne à medida que vamos conseguindo êxito em, intuitiva e espontaneamente, oferecer ao próximo a mesma misericórdia imerecida que recebemos de Deus. O nosso amor ao próximo revela e qualifica a intensidade do nosso amor a Deus. Não há outra fórmula; é esse o parâmetro bíblico (Mateus 25:31-46). Andar no Espírito é termos como reflexo condicionado a mesma tolerância, longanimidade e bondade de Deus (Colossenses 3:12), que levam o pecador ao arrependimento (Romanos 2:4).

Vivendo dessa forma, passamos a ter o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus (Filipenses 2:5) e efetivamente pensaremos com a sua mente (I Coríntios 2:16). Os que assim caminham, buscando tal transformação, são obreiros aprovados, que aprenderam a bem manusear (dividir, separar, com discernimento, Lei e Graça) a Palavra da Verdade – II Timóteo 2:15.

Mas logo após o período apostólico, o cristianismo-religião adotou definitivamente o “outro evangelho” – denunciado e duramente combatido por Paulo (Gálatas 1:6) – que funciona como uma terceira revelação, resultado de uma falsa simbiose entre Lei e Graça (que tornou-se o que veio a ser conhecido como tradição judaico-cristã), exclusiva da igreja pós-apostólica, pois jamais foi realizada por Jesus nem pelos apóstolos, que, entendendo como uma tentação a Deus,